Em 7 maneiras de ser feliz, o filósofo Luc Ferry propõe uma abordagem original, simultaneamente acessível e profunda, sobre o significado da felicidade nos nossos dias, tanto em relação ao indivíduo quanto à sociedade.

7 maneiras de ser feliz de luc ferry

7 maneiras de ser feliz  contraria receitas formatadas e respostas simplistas. Na obra,  o filósofo Luc Ferry  reflete e ajuda-nos a pensar sobre as maneiras como podemos viver de uma maneira plena e gratificante.

“Fugindo das lições de sabedoria e outras ‘receitas’ em voga, Ferry assina um livro cheio de alegria.” — Le Parisien

O livro foi lançado no Brasil em fevereiro de 2018.

Leia nossa resenha crítica do livro 7 maneiras de ser feliz!


Afinal, o que é felicidade?

Shrugging woman in doubt doing shrug showing open palms.

Reprodução: Depositphotos

Conseguimos saber, de forma clara, o que nos torna infelizes. Mas o que nos faz felizes?

Em as 7 maneiras de ser feliz, Ferry propõe que “nada pode entusiasmar mais do que o amor e nada é mais desesperador do que o luto por um ser amado” (p. 13).

Já parou para refletir que a valorização contemporânea da busca pela felicidade tem se tornado cada vez mais forte?

A prática de esportes e uma vida fitness, o fascínio pela alimentação saudável, terias de desenvolvimento pessoal e livros de psicologia positiva não param de proliferar.

“Sociedades democráticas passam a levar ao extremo a ideia de que a felicidade é o novo imperativo, o único objetivo da existência humana e de que temos, por assim dizer, a obrigação de estar não somente em forma, com boa saúde física e psíquica, mas, além disso, plenos e felizes como nossa vida profissional e pessoal.” (Ferry, p. 29).

O autor nos faz refletir e questionar algumas teses da filosofia da “felicidade por si mesmo”.


Tese 1: a felicidade só de pende de nós

Essa tese propõe que a felicidade só depende de nós, não do mundo exterior nem das outras pessoas ao nosso redor.

Esse seria um dos pilares das filosofias da “felicidade por si só”, que busca seduzir o leitor  com a possibilidade de mudar a si mesmo, tendo em vista a impossibilidade de usar a realidade exterior.

Crítica: como podemos ser felizes sem sermos afetados pelas condições em que vivem aqueles a quem amamos, assim como o estado do mundo exterior? 

Para um homem de bem não existe felicidade possível em um mundo infeliz.” (Luc Ferry, p. 42)

Dalai Lama prega (…) que somente a vida dos eremitas permite alcançar a serenidade indispensável à felicidade. (…)
Duvido que alguém consiga praticar a sabedoria de Buda durante algumas horas por mês no sexto arrondissement de Paris, e viver tranquilamente o resto do tempo com um boçal….” (Luc Ferry, p. 42-43)






Tese 2: é totalmente possível ser feliz em um mundo infeliz

Segundo essa tese seria totalmente possível ser feliz em um mundo infeliz. “Lenoir nos explica que isso constitui até mesmo um dever moral, pois a felicidade, por ser contagiosa, é benéfica aos outros.” (p. 36).

De acordo com Ferry, os teóricos da felicidade por si só asseguram que a felicidade é possível em todas as circunstâncias, para isso sendo preciso dizer “sim” à vid

a “com seus altos e baixos”.

Crítica: “Pode-se verdadeiramente ser feliz em Goma ou Auschwitz, no meio do massacre de uma aldeia na República Centro-Africana, em uma câmara de tortura na Síria?” (p. 36)

Leia também: Por que fazemos o que fazemos?, do professor e filósofo brasileiro Mario Sergio Cortella.


Tese 3: a felicidade é perfeitamente definível

“Para isso, basta que consigamos identificar bem nossa natureza profunda, nosso eu mais íntimo, nossas necessidades fundamentais, que sejamos capazes de nos libertar da tirania dos artifícios que nos fazem entrar na corrida louca do consumismo. Em outras palavras, precisamos retornar do “ter” ao “ser”.” (7 maneiras de ser feliz, p. 38)

Esses preceitos podem ser facilmente encontrados em livros e revistas que falam da importância de se aproveitar o momento presente, de viver a vida aproveitando cada instante. Seria uma vida mais centrada no Ser do que no Ter, onde devemos ter especial cuidado à nossa “fuga consumista”.

Crítica: ao contrário da infelicidade, que é facilmente definível e identificável, a felicidade será sempre difícil de se definir.

Podemos identificar o que nos tornaria infelizes: o luto, uma doença grave, guerra, separação, a perda….

Por outro lado, o que nos faz feliz? O amor? A justiça? O dinheiro? o sucesso? A inteligência? 


 

A tirania da felicidade obrigatória

sete maneiras de ser feliz

Será que a busca pela felicidade pode nos tornar mais infelizes?

Para Ferry, “a busca desesperada pela felicidade certamente provoca a infelicidade” (7 maneiras de ser feliz, p. 50).

Vivemos em um mundo com o culto à felicidade. Se acessarmos nossas redes sociais, é bem provável que 11 em cada 10 de nossos amigos (sim, o exagero numérico aqui é proposital) estarão compartilhando momentos maravilhosos, viagens incríveis e corpos esculturais. Parece que a felicidade é eterna.

No entanto, como ressalta Ferry “não existe felicidade eterna, mas somente alegrias menos ou mais duradouras” (p. 53).

Seria essa demonstração constante e a necessidade de compartilhar exclusivamente momentos de alegrias uma amostra de nossa submissão à tirania pela busca da felicidade?

“as pessoas que mais valorizam a felicidade são, em média, menos felizes do que as outras e mais inclinadas a entrar em depressão.” (Mickael Mangot, Heureux comme Crésus).





As sete maneiras de ser feliz

Caro leitor do Leia um Livro, eu sei que os trechos acima não são muito animadores. E entendo que se você (ainda) está lendo esse post é porque procura algumas sugestões de como ter uma vida feliz. Também procurei ao ler o livro intitulado as 7 maneiras de ser feliz.

A boa notícia é que  Luc Ferry não nos deixa (100%) na mão. O autor nos propões basear a felicidade em sete verbos, que devem servir como fio condutor:

  1. Amar
  2. Admirar
  3. Emancipar-se
  4. Aplicar os horizontes
  5. Aprender e criar
  6. Agir

1- Amar

luc ferry felicidade

O amor, claramente, é o que dá sentido à nossa vida, pois uma vida sem afeição nao valeria grande coisa. Mas a perda do ser amado, sob qualquer forma que seja – divórcio, separação, luto -, é também o que nos afunda na maior infelicidade.” (p. 54)

Como viver no dia a dia com aqueles a quem amamos, sabendo que um ser, desde o momento em que nasce, já tem idade suficiente para morrer? Como fazê-los tão felizes quanto possível? Como evitar ou dissipar os conflitos? Como criar nossos filhos? Que dose de transparência é necessária num casal? Como transformar dentro dele o amor-paixão, que dura pouco, em uma ternura ou uma amizade amorosa mais duradoura?

“É respondendo a essas questões que podemos tornar o amor tão feliz quanto possível.” (p 74)


2- Admirar

7 maneiras de ser feliz admirando

Foto: Divulgação

Nesse ponto o livro as 7 maneiras de ser feliz nos faz refletir sobre alegria que nos traz o fato de admirarmos alguém, seja nossos pais, amigos, super-heróis…

“Nós só admiramos de fato aquilo que nos ultrapassa, ou mesmo aquilo que nós mesmos seríamos incapazes de fazer.” (p. 75)

“admiração de fato percorre na história dos homens uma escada, cujos degraus vão descendo do menos humano ao mais humano. (…)
Por que aquilo que faz com que nos sintamos menores, mínimos, inferiores, e até minúsculos (…) nos proporciona apesar de tudo, um sentimento de alegria? (…)
A admiração implica em uma relação com o sagrado. (…) Ao participar desse outro, mesmo que apenas admirando, demonstrando que o compreendo e que me incluo diante de sua grandeza, de algum modo eu chego a ser parte integrante dele.
A admiração nos dá assim o sentimento de participar do grandioso, do transcendente, qualquer que seja, e essa participação nos faz felizes na medida em que suscita em nós uma certa forma de entusiasmo.” (7 maneiras de ser feliz, p. 76-77)


3- Emancipar-se

sete maneiras de ser feliz

Liberdade ou felicidade? 

Viver dentro ou fora da Matrix?

“Entre a liberdade e aventura, entre a lucidez e a felicidade, se precisássemos escolher – e às vezes é preciso -, o que deveríamos decidir? (…)
É melhor viver na servidão ou na ilusão, ou menos feliz, mas na liberdade e na verdade?” (p. 92)

“Já no século XVIII, Kant emitia a suspeita de que a natureza havia nos equipado mal para a felicidade: de que servem a inteligência, o espírito crítico e o livre-arbítrio, se nossa vida só tiver a tendência da satisfazer, a qualquer preço, nossas aspirações ao bem estar?” (p. 93)

“Se a Providência quisesse que fôssemos felizes, não nos teria dado a inteligência.” (Kant, Fundamentos da metafísica dos costumes)

“Em Rousseau, Kant ou Tocqueville, assim como mais tarde em todas as tradições liberais no plano político, ocorre evidentemente que: a liberdade é primordial; em caso de conflito com o bem-estar, ela sobrepuja a busca da felicidade.
Por quê?
Muito simplesmente porque a liberdade é intrínseca ao ser humano, é o que o distingue dos animais e nos permite entrar na esfera do ético, de modo que perder a liberdade é perder a própria humanidade.” (7 maneiras de ser feliz, p. 96)

O paradoxo da escolha

No entanto gostaria de trazer a reflexão sobre o paradoxo da escolha. Basicamente, quanto mais variáveis, menos satisfeitos ficamos com o que escolhemos, porque temos consciência de que perdemos uma outra opção. Dessa forma, ao escolher entre liberdade ou felicidade, passaremos a nos questionar se tomamos a melhor escolha.

Mas, vejamos bem, seria realmente possível escolhermos entre liberdade e felicidade?

“Se a privação da liberdade é uma desgraça, o exercício dela nem sempre é garantia de atingi-la. Ser livre é assumir as próprias escolhas, levá-las a sério e sentir-se mais responsável do que inocente.
Às vezes, por injunção do trágico, nossas escolhas nos levam a sacrificar nosso bem-estar em nome de valores superiores à felicidade: a dignidade humana, a resistência à opressão, ao totalitarismo, à barbárie ou mesmo simplesmente a obrigação de defender aqueles a quem amamos.
Como sempre, o que nos faz felizes é também o que pode nos tornar infelizes.”  (7 maneiras de ser feliz, p. 107-108)





4- Ampliar os horizontes

em busca da felicidade

Por que o pensamento ampliado nos deixa felizes?

“o fato de nos decentralizarmos, de nos abrirmos para o mar aberto, de nos desligarmos de nossas particularidades de origem, da família, da nação, descobrindo outros países e outras línguas, em suma, o fato de nos emanciparmos dos comunitarismos que nos aprisionam nos limites do espírito tacanho é ao mesmo tempo doloroso e, no entanto, fonte de alegrias indescritíveis.” (7 maneiras de ser feliz, p. 109)


5- Aprender e criar

aprender e criar por luchar ferrry

Só conhecemos bem aquilo que somos capazes de ensinar; e, reciprocamente, só ensinamos bem aquilo que aprendemos e compreendemos o suficiente para transmitir.” (Luc Ferry, p. 123)

É impossível criar sem ter aprendido. Os criadores, mesmo os mais inovadores, não partiram do nada.” (p. 124)

“É preciso dizer e repetir aos nossos filhos: aprender nunca é inútil, os gênios não florescem sobre uma tábua rasa, sobre a secura do asfalto, mas sobre um terreno fértil já trabalhado pelas gerações passadas e enriquecidos pelos anos.” (7 maneiras de ser feliz, p. 124)

“Segundo ele (Platão), o prazer de aprender, a alegria sentida com a aquisição de conhecimentos enquanto tal (…) é única e incomparável. Por quê? Porque é o único prazer que não é precedido de uma falta, de um sofrimento.” (7 maneiras de ser feliz, p. 126)

“Segundo Kant, o prazer que a beleza proporciona é da mesma ordem que o prazer do conhecimento.” (Luc Ferry, p. 130)


6- Agir

as 7 maneiras de ser feliz

“Nossos primeiro-ministros (franceses) preferem cada vez mais nomear para postos-chave indivíduos puramente políticos, sem nenhuma competência na área a eles atribuídas. (…)
A ação só pode trazer bem-estar ao mundo se tiver sentido- algo que a tecnicização da política a priva até a raiz.” (7 maneiras de ser feliz, p. 152-153)

Trabalhar para o bem de outrem pode fazer você feliz. Dessa forma, a sugestão seria mais ação, em prol do bem-estar dos outros, do que a busca pelo poder (exemplificado pelas nomeações públicas puramente políticas).





O autor de 7 maneiras de ser feliz

Nascido na França, em 1951, Luc Ferry é filósofo e um dos principais defensores do humanismo secular – visão de mundo que se contrapõe à religião, por causa de seu compromisso com o uso da razão crítica, em vez da fé, na busca de respostas para as mais importantes questões humanas.

Foi ministro da Educação na França de 2002 a 2004.


Ficha técnica do livro 7 maneiras de ser feliz: como viver de forma plena

livro 7 maneiras de ser feliz

  • Título original: 7 façons d’être heureux: ou les paradoxes du bonheur
  • Autor: Luc Ferry
  • Editora: Objetiva
  • Publicação no Brasil: fevereiro de 2018
  • Páginas: 174
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Fotos sem identificação: Creative Commons CC0. Fonte: Pixabay. Livremente editadas pelo blog.

o melhor de Mario sergio cortella

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